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A Dança das Almas

Era para ser um dia normal, se não fosse por uma prova que podia determinar o destino de um garoto. Um ônibus e cinco vans foram disponibilizados para até a cidade onde o garoto e outras pessoas da mesma idade fariam a mesma prova, todas com o destino em mãos. Perto das nove horas da manhã o garoto acorda e realiza toda a rotina matinal comum, toma café, banha-se. Devido ao frio e tempo chuvoso que se aproximava ele veste uma camiseta cinza-escuro, uma camisa azul-marinho e calças jeans. Em sua mochila ele levava não mais que o necessário; salgadinhos, duas garrafas de refrigerante e, claro, canetas para fazer a prova. Ele colocou a mochila nas costas e saiu de casa, na rua o vento era leve, mas trazia nuvens cinzas.

O caminho para a escola não era mais que cinco minutos de caminhada, pois lá era o ponto de encontro dos ônibus, bastou que ele entrasse na escola para aguardar que os últimos detalhes fossem feitos que começou a chover, uma chuva leve, fina e fraca. Talvez seis rostos conhecidos estavam lá, nenhum necessariamente amigável, fosse falta de afinidade, fosse a pressão da prova que estava por vir. Para passar o tempo tudo que o garoto fez foi colocar os fones de ouvido e selecionar uma música qualquer no celular.

O diretor da escola deu o aviso e várias pessoas começaram a caminhar pela chuva em direção as vans e ao ônibus, para onde o garoto se dirigiu. Ele sentou-se próximo ao fundo, não fazia diferença quem sentaria ao seu redor, afinal ele havia deixado aquela escola há praticamente três anos. A playlist não cessou durante toda a viagem, a maior parte do tempo ele apenas olhava pela janela, pensava como poderia ser seu futuro se ele passasse na prova, teria ingressado em uma das faculdades mais disputadas do país, continuaria a trilhar seu caminho junto aos amigos e, quem sabe, até sair do país. A mudança de uma faixa calma para uma pesada o trouxe de volta a realidade, o ônibus parou próximo a um shopping para que todos pudessem comer antes de seguir viagem para o local da prova.

Não passava de dez ou onze horas da manhã, o garoto caminhou sozinho pelo estacionamento até a entrada, ele observava os grupos de amigos que caminhavam na mesma direção, observava que eles pareciam aproveitar os últimos momentos para relaxar e tentar não parecerem tensos. A mudança para um trash metal o devolveu à realidade, ele agora se via dentro do shopping, na praça de alimentação, aguardando na fila de um fast-food qualquer esperando para ser atendido. Leva sua bandeja para uma mesa com pessoas que ele conhecia apenas de rosto, pausa a música e tira os fones, o garoto conversava pouco, não que fosse anti-social, mas aquelas pessoas simplesmente não pareciam confortáveis na presença dele e vice-versa.

Acabada a refeição e novamente no ônibus a música volta a tocar, agora com um hard rock que o acompanharia até a faculdade onde faria a prova. O local estava cheio, o garoto imaginava quantos ali poderiam ser nomeados como “concorrência”. Ele se dirigiu até a sala em que realizaria a prova, esperou para que a hora chegasse e as portas se abrissem, ele se senta no chão e observa que a multidão parecia tensa, cada um segurava em suas mãos o futuro que seguiria. Fora da cobertura notava-se que a chuva havia parado, mas não seria por muito tempo.

Terminada e entregue a prova o garoto sai da sala e é encaminhado para uma determinada área, lá ficou ouvindo rock industrial até ficar com vontade de procurar por alguém que viera com ele no ônibus. Com a fina chuva caindo não era difícil encontrar pequenos grupos debaixo de coberturas, como também não foi difícil encontrar o grupo que ele procurava. Ele se aproximou, cumprimentou-os, o grupo era composto por três garotas e dois garotos, e perguntou como foram na prova, nada mais a ser falado ele colocou os fones de volta no ouvido e sentou-se no chão junto deles.

Certo tempo depois mais pessoas começaram a chegar, mas uma garota em especial chamou sua atenção, ela tinha cabelos loiros até os ombros, olhos castanho escuro, vestia uma blusa regata branca e um shorts xadrez branco e laranja. O garoto fixou sua visão nela por alguns segundos, sua animação o cativou e não demorou para que começassem a conversar sobre assuntos vulgares e durante a conversa ela olhou nos olhos dele, ele retribuiu com o mesmo olhar e como em um plano astral as duas almas se encontraram, a dele, uma alma cinza-escuro que tivera sido corrompida ao longo do tempo, a dela, uma alma dourada e brilhante de pureza e inocência e no momento em que as almas se encontram elas se juntaram e pareciam dançar pelo infinito do espaço como se todo o tempo tivesse parado só para que apreciassem aquele momento. Uma valsa entre duas almas opostas em que suas formas se alteravam e se misturavam até que nem mesmo o plano astral fosse suficiente para eles.

Foi em questão de segundos, mas para os dois foi como se a Terra tivesse dado uma volta completa em torno de si. E com essa volta os dois foram de mãos dadas até o ônibus, mas aquele entrelaçar de dedos não durou quanto ambos quiseram. Ela estava em outra van e ele não sabia onde aquela van poderia parar, os dois foram separados como Orpheu e Eurídice e quando o garoto olhou para trás, já na porta do ônibus, pode ver aquela alma dourada dando seu último olhar e adentrar na van.

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O Louco

A pesada porta de ferro de uma cela qualquer do Hospital Psiquiátrico de Arkham, Massachusetts, se abriu, dois guardas entraram, tiraram o paciente da amarra no teto e o levaram para onde jamais retornaria.

Aquele era o cara da cela ao lado que não aguentou os últimos dois meses de “terapia”.  Quanto a mim? Sou o paciente 667-1, já não me lembro de meu nome nem do motivo de estar aqui devido a grande quantidade de remédios que me deram. Como todos neste lugar, sigo as regras, de manhã a primeira dose de pílulas, a tarde três vacinas e antes das luzes se apagarem mais uma dosagem com pílulas coloridas.

Apesar de ser um hospital, o lugar não é dos mais limpos, as paredes que costumavam ser brancas eram amareladas com escorridos pretos de puro muco, algumas sujas de sangue ou vómito. As celas eram lavadas cerca de uma vez por ano o que deixaja um forte cheiro de dejetos humanos por quase todas as alas. Por todos os escuros corredores podiam-se ouvir gritos, fosse das injeções, paranóia ou até alguém tentando cometer suicídio.

E para um grande lugar haviam grandes médicos, não em questão de serem famosos ou inteligêntes, mas de serem realmente grandes e fortes, seus olhos eram estranhos, mas quando apareciam em uma cela não era que você iria reparar muito, provavelmente estaria morto ou tentando escapar, pois eram só em casos assim que eles apareciam.

As selas eram individuais, apertadas, com uma cama, uma pia, uma privada e uma minúscula janela a uma altura em que não se poderia ver o lado de fora. Raramente saíamos das selas, uma vez a cada, talvez, três meses para inspeção, um de cada vez para não manter contato com outros pacientes, ou quando alguém era visitado. Devo adimitir que já recebi uma visita, não era nenhum familiar, isso se eu ainda tiver algum, era uma garota que não disse seu nome, tinha os cabelos vermelhos até os ombros, olhos escuros, usava uma jaqueta de couro e uma calça jeans preta colada ao corpo.

“Espere a terceira lua do próximo mês, chute a porta e siga o corredor pela direita até uma grade bloquear seu caminho”, depois de ouvir isso achei que ela deveria estar em meu lugar, mas ainda assim esperei até a noite que ela disse. Fui levado de volta a minha sela, olhei pelo lado direito em que ela seguia e percebi que o corredor levava à uma porta de madeira, diferente das demais do hospital.

Esperei até tal noite, nesse decorrer de tempo os médicos começaram a marcar os pacientes. Entravam na cela com um ferro quente com um formato de um desenho estranho, outro médico tirava sua camisa e seu peito era queimado. Por noites os gritos foram intermináveis e quando o silêncio era absoluto dava para ouvir o choro junto ao sussurro que vinha com o vento pela janela.

 Chegou a esperada noite, a lua estava cheia o que fazia a luz entrar pela janela e iluminar pobremente a cela. Os médicos não haviam dado os remédios noturnos, o que não era mais estranho do que ver todas as portas abertas, as selas vazias e o corredor parecendo estar molhado. Comecei a caminhar para a direita, meus pés descalsos tocavam o molhado chão, havia uma luz saindo por baixo da porta.

Antes que me aproximasse da grade que ficava a quatro metros da porta ouvi algo cair atrás de mim, me virei e vi centenas deles, sombras com formas humanas, seus olhos eram de um amarelho brilhante. Não tive reação alguma, apenas cai de joelhos em frente a tantos deles, pensei que fariam algo, mas simplesmente passaram ao meu redor e andaram na direção da grade, seguraram nela e começaram se mexer para frente e para trás. A princípio não pareceu muita coisa, mas uma força enorme foi exercida a ponto de derrubar a grade com um estrondo que ecoou talvez por todo o prédio.

Eles levantaram, dois me levantaram pelo braço e começaram a me arrastar em direção a porta, eles a abriram e eu devo ter levado uns dez segundos até me acostumar com a claridade. Tudo que consegui ver foi uma estátua de bronze, em um altar, a estátua estava trinta centímetros suspensa no ar e brilhava. Eles me jogaram no chão e ao tentar me levantar vi minhas mãos e pés, cobertos por sangue.

Olhei para trás, conforme eles se aproximavam da estátua iam desaparendo como sombras, além deles, no corredor ao fundo, vi que corria um rio de sangue, preferi não saber qual era sua fonte. Até que ouvi algo parecido com algo batendo em ferro. Olhei para a estátua e prefiro não repetir o que ela sussurrou para mim. Minha visão foi ficando embaçada até que apaguei.

Acordo amarrado a uma cadeira após levar uma baldada de água fria, na sala quase não se via nada. Na minha frente estavam três homens, usavam jalecos brancos com algumas manchas vermelhas nas pontas inferiores, camisas brancas, jeans claros e sapatos sociais. Um deles se aproximou a ponto de ficar cara-cara comigo, olhei em seus olhos, eram de um amarelo claro, pareciam brilhar. “O que Ele te dise?” o homem pergunto com uma voz rouca que parecia o passar de unhas sobre um quadro negro. Eu disse que não sabia do que ele estava falando, o  homem olhou para trás e outro lhe deu uma seringa com um liquido verde brilhante, ja estava acostumado com agulhas então nada senti ao injetarem daquilo.

Enquanto retirava a agulha do meu braço o homem olhou os outros dois, eles sabiam que o que eu ouvira não poderia chegar a demais ouvidos. Um deles se retirou e afundou na escuridão da sala.

Por mais estranha que fosse aquela cena eu não estava chocado, o que me incomodava era o que ou ouvira da estátua. Eu sabia a Verdade e não poderia dividí-la com ninguém, existem coisas que apenas a mais insana das mentes suportaria. Sabia que aqueles homens não eram os mesmos seres de olhos amarelos que vira aquela noite.

O terceiro homem retornara, trazia com ele uma pequena estante cirúrgica com uma bandeija coberta por um liquido esterelizante, um picador de gelo e um martelo. Tinha certeza qual seria o final daquilo e não seria bom. O homem pegou o picador de gelo e apontou milímetros a cima do meu globo ocular, pouco acima do canal lacrimal. Com a outra mão pegou o martelo e levantou o braço para pegar impulso. Meu suor era frio, não deixei de encarar o homem por um segundo e desejar que aquelas coisas de olhos amarelos estivessem ali.

O homem desceu o braço com toda sua força, o picador de gelo atravessou meu crânio e pude sentir o aço frio, sobre meu olho esquerdo, se mexendo dentro de minha cabeça e enquanto minha visão ia ficando vermelha pelo sangue que escorria, pude ver, por cima do ombro do homem, pares de olhos amarelos na grande sala escura.

Notes

O Jornalista

“Maçonaria!” Era o que corria nos jornais da terra da rainha, mas eu sabia a verdade e sabia que eles nunca a tirariam de mim. Eles estavam se espalhando rápido, não levaria muito tempo para que fosse tarde demais.

Para que eu possa explicar o que houve devemos voltar ao dia de ontem. Uma segunda-feira, tediosa como sempre, nada novo para ser publicado no jornal, precisávamos de uma novidade, algo que abalasse as estruturas. E, naquela tarde, por volta das três horas, recebi uma ligação de um do fotógrafo dizendo que havia encontrado a matéria do século. Corri do escritório para o local, o tempo estava nublado, nuvens pesadas se acumulavam fazendo a tarde parecer início da noite.

Ao chegar reparei bem no lugar, um hotelzinho meia-boca, muito velho. O fotógrafo esperava na porta, perguntei o que teríamos de interessante ali, fora a multa do agente sanitário, ele disse que o lugar era assombrado e depois que um amigo dele passou uma noite lá ele foi levado a um hospício barato e alguns dias depois se enforcou em sua cela.

Como não tinha muito mais para fazer e o jornal pagaria a diária, decidimos ficar. Demos nossos nomes no balcão e pegamos as chaves para os quartos. Enquanto conversava com o balconista perguntei sobre os rumores do lugar ser assombrado, “nunca ouvi nada do tipo” foi o que ele disse. Pessoalmente, ele devia ser a assombração pois era extremamente pálido, magro e usava um terno mofado, o que restava de cabelo em sua cabeça era quase tão branco quanto ele.

Como ainda tinha que terminar meu trabalho, voltei para o escritório. Duas viaturas estavam paradas na frente e faixas de “área criminal não passe” selavam a porta. Ouvi dois policiais conversando, “ele matou quase todos, só um dos funcionários que não estava no local sobreviveu”. Entre as viaturas havia uma ambulância e nela estava, amarrado em uma camisa de força, com sangue no rosto, cabelos despenteados e com sua calça e sapatos sociais também cobertos de sangue, o fotógrafo.

“Eu juro! Havia um garoto!” O fotógrafo não parava de gritar coisas desse tipo. Isso até ele me ver, então surtou de vez. “Não! Você não devia estar aqui!”. Os policiais pareciam ignorar a gritaria, apenas lhe deram uma dose de calmantes até ele apagar e então o levam sabe-se lá pra onde.

Era por volta de seis da tarde, estava escuro e começara a chover. Fui para casa, um apartamento alugado no centro da cidade. Ao entrar no prédio não vi ninguém na recepção, o que achei estranho, mas não dei uma importância. O velho elevador tinha os botões amarelados e as luzes ficavam piscando em dias de chuva. Terceiro andar, segunda porta a esquerda, esta, estava aberta, achei estranho pois moro sozinho.

Era um lugar apertado e como não recebia muito e nem ficava muito em casa, nunca me importara em mobiliar o apartamento. Havia apenas um sofá em frente a uma TV velha de segunda mão, uma cama de solteiro, dois pratos no armário e um na pia junto de duas panelas sujas, pareciam estar lá parados por quase um mês. A pior parte foi o banheiro, limbo verde na pia e no vaso, a banheira, cheia de água, estava preta por dentro e fedia como se alguém estivesse morto la dentro, fora aqueles dois pontos brilhantes dentro dela, que pensei serem moedas, mas estava meio estressado para pensar nisso.

Me encontrava em um estado de mau humor, nunca fui chegado aos colegas de trabalho, mas saber que todos estavam mortos não era algo muito feliz, para ajudar, a chuva havia derrubado a eletricidade do prédio inteiro então peguei meu sobretudo, vesti um jeans que achei no chão, coloquei meus sapatos de trabalho e um chapéu que me deixava com cara de mafioso, por fim, desci as escadas até a recepção, não vi ninguém e sai do prédio.

A chuva ficava mais forte, na rua poucos carros passavam e eu não tinha guarda-chuva. Corri até um bar próximo para permanecer seco. No bar havia uma garota no balcão, devia ter algo entre 17 ou 18 anos, vestia um sobretudo preto, coturnos e uma blusa rosa e preta de uma banda punk inglesa. Seus cabelos ruivos caiam sobre os ombros, entre suas mãos estava uma xícara de chá.

Sentei-me ao lado dela, “seu amigo ficou louco, todos próximos a você morreram, não sabe o que fazer e está desesperado”, ela puxou conversa. Fiquei surpreso e perguntei como ela sabia tudo isso, mas ela só me olhou com um sorriso melancólico, deu um gole em seu chá e perguntou, me olhando nos olhos, se eu estava disposto a encontrar a verdade. Mesmo não entendendo bem a pergunta, disse que sim.

As luzes do bar apagaram e voltaram devido a um relâmpago que pareceu ter caído do lado de fora do lugar pois fez-se um barulho ensurdecedor segundos depois. “Então sabe o que fazer” disse a garota com as chaves do quarto do hotel no qual eu tinha alugado quartos para aquela noite, não sei como ela conseguira pegar as chaves do bolso interno do meu sobretudo, apenas peguei as chaves e me levantei, antes de sair pela chuva me virei e perguntei o a ela seu nome, “Mich…. Sally” disse ela, gaguejando.

Sai do bar e fui para o hotel, não sabia que horas eram, meu relógio havia parado e com aquelas nuves cobrindo o céu poderia ser qualquer horário entre 6 da tarde e meia-noite, mas reparei que não haviam carros transitando na rua. O hotel era quase uns 100 metros dali, a fraca iluminação naquela parte da cidade pareceia deixa o lugar ainda mais sombrio, no lado de dentro havia o velho do balcão que me atendera e sentado em uma das cadeiras da recepção estava um garoto, que talvez tivesse 8 anos, não havia ninguém perto dele e o recepcionista estava ocupado, preferi não incomodar então fui para o quarto.

Um cheiro de mobilha velha preenchia o ar, não havia TV, poucas luzes, uma cama de casal bem velha, uma mancha preta de quase trinta centímetros na parede, provavelmente de algum vazamento de água e um banheiro com a lâmpada queimada. Apesar do lugar ser pequeno e das hitórias que ouvi, não me parecia assombrado. Deitei na cama e fiquei encarando o teto, quando estava para pegar no sono olhei para a direita e no criado-mudo estava a câmera do fotógrafo que fora preso esta tarde.

Era uma daquelas câmeras que revelam instantaneamente a foto, não lembrava de te-la visto quando entrei. De qualquer forma, peguei-a e comecei a tirar fotos do quarto para mostrar que não era assombrado, até que uma delas mostrou a janela. O que seria normal se não tivesse aparecido um garoto com os olhos brilhantes no canto da foto. Joguei a câmera contra a parede e olhei pela janela, não tinha nada, mas não era possível aquele garoto aparecer no quinto andar do lado de fora.

Assustado, me virei, a mancha na parede se abrira e agora dava para ver o quarto ao lado, devo admitir que foi algo que não deveria ter visto. Velas por todo o quarto, manchas vermelhas nas paredes e, no meio do quarto, um cículo no chão com alguns rabiscos, talvez uma lingua antiga, e no centro do círculo uma pequena estátua, não pude ver sua forma devido a escuridão, mas parecia ter duas pedrinhas vermelhas no topo dela.

Tiro os olhos do buraco no momento em que sinto alguém tocar meu ombro, me viro, ainda assustado, e me deparo com o garoto da recepção. Seus olhos brilhavam, seu corpo estava molhado, estava coberto por um tipo de limbo verde e haviaum rastro de água vindo do banheiro. Me joguei contra a parede e comecei a gritar, desesperado, abri a porta e foi quando eu percebi que seria melhor ficar no quarto. No corredor escuro haviam dez, talvez vinte deles, todos com olhos que pareciam pequenas chamas circulares.

Tudo se apagou, só me lembrava de estar em uma ambulância com alguém injetando sedativos em meu braço. Acordo em um quarto branco, uma agulha em meu braço e a bolsa de soro ao lado, uma pequena mesa com seringas e doses de calmantes.

Minha visão estava embaçada, mas notei alguém entrar no quarto, “vai ficar tudo bem, depois dessa dose ele não vai precisar se preocupar com o que viu” disse uma voz masculina. Ele preparou uma seringa e senti uma ponta de metal penetrar meu braço e um líquido ser mandado para dentro dele, depois disso minha boca ficou seca, não sentia mais aquele braço, meus olhos viraram para cima, coloquei a outra mão sob o peito e não pude sentir batida alguma, meu corpo ficou gelado e as cores foram se apagando aos poucos, até não sobrar nada além da escuridão… e dois pontos ao longe.

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O Escritor

Meu nome é Charles Stoneman, sou um escritor norte americano que, apesar dos cabelos brancos, tenho pouco menos de 37 anos. Sempre preferi correr atrás da inspiração do que esperá-la chegar até mim, vivia viajando o país por todo tipo de lugar procurando algo que me permitisse criar uma obra-prima e essa oportunidade veio.

Uma de minhas viagens me levou para uma pequena cidade no interior de Utah, um lugar um tanto que pobre, quase sem eletricidade. Não havia mais do que trinta humildes casas na cidade, todas próximas à uma estrada que seguia junto a um rio. Era um terrivelmente quente dia de verão, parei o carro em um posto de gasolina e entrei no pub que havia ao lado para ver se tinha alguém que pudesse me ajudar, ja que o posto estava deserto.

No pub só estava a garçonete e dois idosos conversando em uma mesa no canto do estabelecimento. Me aproximo da garçonete, ela devia ter 17 anos, tinha cabelos ruivos e olhos tão escuros quanto a noite. Mas se deixasse de reparar nos olhos e por um segundo olhasse para a expressão de seu rosto veria imediatamente que algo a incomodava, parecia cansada, com medo, como se tivesse passado noites sem dormir. Ficava intrigado em pensar no que deixaria uma jovem desse jeito, mas decidi não perguntar e apenas pedi algo gelado para beber.

Os velhos conversando no canto eram muito pálidos e falavam baixo. Como a garçonete tinha ido para a cozinha decidi ir até eles para perguntar sobre a cidade. Um deles viu que eu estava me aproximando e encerrou o assunto. Perguntei sobre o movimento na cidade e se haveria algum lugar em que eu pudesse ficar por alguns dias, nenhum deles respondeu, apenas ficaram me encarando com olhos de um castanho tão claro que pareciam amarelos de perto. Percebi que estava incomodando então me retirei, deixei o dinheiro no balcão e voltei para o posto.

Ao voltar encontrei minha caminhonete com o vidro esquerdo estilhaçado, dentro dela havia um tijolo com um papel amarrado nele por um elástico. No papel estava escrito: “saia e não volte”. Não sei que tipo de brincadeira era aquela, mas se alguém queria algo comigo, conseguiu me deixar irritado. Eu estava abrindo a porta da caminhonete quando ouço alguém atrás de mim: “Vai fazer como os outros e não irá embora, não é?”.

A pergunta que a garçonete acabara de fazer me intrigava. Virei-me para perguntar o que acontecera com os outros e vi que ela não estava com o uniforme do emprego e sim com uma camiseta regata preta com a estapamda de alguma banda inglesa, jeans com o joelho direito rasgado, coturnos e o cabelo solto, que ao por-do-sol parecia pegar fogo.

Ela disse que era melhor eu não ficar na cidade, insistiu que eu fosse embora o quanto antes. Perguntei o por que e ela simplesmente disse que os locais não gostavam de visitantes, mas do jeito que ela falava eu tinha certeza de que estava escondendo algo. Após alguns minutos conversando ela viu que eu estava decidido a ficar e após saber meus motivos pediu para que eu passasse a noite em sua casa.

O sol se pora, a casa não era muito diferente das outras. Pequena, de madeira e cheirava a mofo. Não tinha TV, as luzes quase não acendiam e achei que se chovesse e o rio subisse poderia invadir a casa.

A garota disse se chamar Michelle. Ela jogou um cobertor no sofá e disse que eu poderia ficar ali. Perguntei a ela o que queria dizer quando falou sobre deixar a cidade ou acabar como os outros, ela abaixou o olhar e disse que naquela noite eu iria descobrir e então se dirigiu ao quarto e trancou a porta.

Eu deveria ter ido dormir naquele momento, mas ao invés disso fui para perto da janela e fiquei olhando o rio correndo lentamente durante a noite enquanto escrevia meu romance. Teria sido um momento bem inspirador se não fosse pelo fato de algo ter saído da água na outra margem. Pensei que era alguma criança que tinha ido dar um mergulho pois devia ter um metro e sessenta de altura, então ela se virou e vi seus olhos, eles eram dois pontos brilhantes, quase como duas velas queimando ao longe. Ele virou mais noventa graus e começou a andar na direção que o rio corria, senti uma enorme vontade de correr atrás dele, mas quando estava quase abrindo a porta para sair da casa fui acertado na cabeça e tudo apagou.

 Acordo na manhã seguinte ainda no sofá e com uma forte dor de cabeça, Michelle estava sentada em uma velha poltrona na minha frente me observando. “Desculpe pela pancada, mas foi preciso”, ela disse. Perguntei que coisa era aquela que saíra do lago e ela disse que não vira nada anormal, fora o fato de eu estar falando sozinho enquanto olhava pela janela.

Não havia reparado até então, mas Michelle estava vestindo uma camiseta que ia quase até os joelhos e nada por baixo. Após comer algumas panquecas que ela havia preparado, sai dizendo que daria uma volta pela cidade, mas ao ligar o motor da caminhonete, segui o rio. Queria saber a qualquer custo o que aquele garoto queria me dizer.

A parte asfaltada acabou e entrei numa estrada de lama, haviam muitas ávores juntas então tive de prosseguir a pé. 2 Km de carro e 100 metros a pé, foi o que percorri paté chegar em um grande lago cercado pelas ávores. O lugar tinha um estranho cheiro, como se tivesse algo podre por perto, o ar era pesado e algo soava em meu ouvido.

Havia lama por toda parte, mas o que me chamou a atenção foram as marcas nas árvores próximas ao lago e as pegadas que pareciam sair dele. Me aproximei do lago, sua água era verde, opaca. Manchas escuras podiam ser vistas no fundo, elas tinham pouco mais de um metro e meio. O som no meu ouvido, que eu achei ser o vento tornou-se um sussurro, que foi ficando mais forte e mais forte até se tornar um horrível grito.

Atordoado eu acordo ainda na floresta, já era quase noite. Não havia percebido, mas quando me levantei olhei para o lado e um garoto estava a meu lado, mas o que me fez correr não foi o fato de ele estar coberto de limbo, com alguns pedaços de carne e pele faltando, como se tivesse passado anos afogado no lado, o que me fez correr foram seus brilhantes olhos amarelos.

Cheguei até o carro e dei partida, olhei pelo retrovisor e o garoto estava lá, parado, me encarando. Acelerei sem pensar e quase atropelei Michelle. Brequei o carro e perguntei o que fazia ali, disse ela que sabia onde eu estava indo então teve de vir atrás de mim.

Olhei para trás, o garoto desaparecera, mas ao voltar minha visão para frente, lá estava ele, entre eu e Michelle. Eu estava perplexo, dei três passos para trás enquanto Michelle pergunta se eu estava bem. “Não está vendo!?” perguntei, e antes de qualquer resposta me virei e corri. Corri para dentro da já escura floresta e conforme avançava podia ver mais e mais pares de pontos amarelos entre as árvores.

Parei de correr quando senti a água tocando meus pés. Por mais que tenha corrído, eu estava em frente ao lago com dezenas de pares de olhos brilhantes me observando. “Consegue ouví-los?” disse Michelle saindo de trás de uma árvore. E se eu prestasse atenção ouviria alguém me chamando…. uma suave voz vinda do fundo do lago. Comecei a andar em sua direção, afundando aos poucos e quando estava com água na altura da cabeça algo me puxou para baixo.

No fundo consegui ver uma estátua de bronze de 30 centímetros de uma forma humana, porém com asas de morcego e cabeça de polvo, no lugar dos olhos haviam duas pequenas pedras vermelhas, que brilhavam e me atraíam, mas ao me aproximar, tudo se apagou.

A completa escuridão por questão de alguns segundos. E quando voltei a ver, me senti mais leve, não estava cansado e não estava mais no fundo do lago. Vi Michelle ajoelhada próxima ao corpo do garoto dos olhos brilhantes, ela chorava. Me aproximei fazendo algumas perguntas, mas ela não respondeu. Olhei bem para o corpo em seu colo e não era o garoto, era eu.