A Dança das Almas - Spin off
Era para ser um dia normal, se não fosse por uma prova que podia determinar o destino de um garoto. Um ônibus e cinco vans foram disponibilizados para até a cidade onde o garoto e outras pessoas da mesma idade fariam a mesma prova, todas com o destino em mãos. Perto das nove horas da manhã o garoto acorda e realiza toda a rotina matinal comum, toma café, banha-se. Devido ao frio e tempo chuvoso que se aproximava ele veste uma camiseta cinza-escuro, uma camisa azul-marinho e calças jeans. Em sua mochila ele levava não mais que o necessário; salgadinhos, duas garrafas de refrigerante e, claro, canetas para fazer a prova. Ele colocou a mochila nas costas e saiu de casa, na rua o vento era leve, mas trazia nuvens cinzas.
O caminho para a escola não era mais que cinco minutos de caminhada, pois lá era o ponto de encontro dos ônibus, bastou que ele entrasse na escola para aguardar que os últimos detalhes fossem feitos que começou a chover, uma chuva leve, fina e fraca. Talvez seis rostos conhecidos estavam lá, nenhum necessariamente amigável, fosse falta de afinidade, fosse a pressão da prova que estava por vir. Para passar o tempo tudo que o garoto fez foi colocar os fones de ouvido e selecionar uma música qualquer no celular.
O diretor da escola deu o aviso e várias pessoas começaram a caminhar pela chuva em direção as vans e ao ônibus, para onde o garoto se dirigiu. Ele sentou-se próximo ao fundo, não fazia diferença quem sentaria ao seu redor, afinal ele havia deixado aquela escola há praticamente três anos. A playlist não cessou durante toda a viagem, a maior parte do tempo ele apenas olhava pela janela, pensava como poderia ser seu futuro se ele passasse na prova, teria ingressado em uma das faculdades mais disputadas do país, continuaria a trilhar seu caminho junto aos amigos e, quem sabe, até sair do país. A mudança de uma faixa calma para uma pesada o trouxe de volta a realidade, o ônibus parou próximo a um shopping para que todos pudessem comer antes de seguir viagem para o local da prova.
Não passava de dez ou onze horas da manhã, o garoto caminhou sozinho pelo estacionamento até a entrada, ele observava os grupos de amigos que caminhavam na mesma direção, observava que eles pareciam aproveitar os últimos momentos para relaxar e tentar não parecerem tensos. A mudança para um trash metal o devolveu à realidade, ele agora se via dentro do shopping, na praça de alimentação, aguardando na fila de um fast-food qualquer esperando para ser atendido. Leva sua bandeja para uma mesa com pessoas que ele conhecia apenas de rosto, pausa a música e tira os fones, o garoto conversava pouco, não que fosse anti-social, mas aquelas pessoas simplesmente não pareciam confortáveis na presença dele e vice-versa.
Acabada a refeição e novamente no ônibus a música volta a tocar, agora com um hard rock que o acompanharia até a faculdade onde faria a prova. O local estava cheio, o garoto imaginava quantos ali poderiam ser nomeados como “concorrência”. Ele se dirigiu até a sala em que realizaria a prova, esperou para que a hora chegasse e as portas se abrissem, ele se senta no chão e observa que a multidão parecia tensa, cada um segurava em suas mãos o futuro que seguiria. Fora da cobertura notava-se que a chuva havia parado, mas não seria por muito tempo.
Terminada e entregue a prova o garoto sai da sala e é encaminhado para uma determinada área, lá ficou ouvindo rock industrial até ficar com vontade de procurar por alguém que viera com ele no ônibus. Com a fina chuva caindo não era difícil encontrar pequenos grupos debaixo de coberturas, como também não foi difícil encontrar o grupo que ele procurava. Ele se aproximou, cumprimentou-os, o grupo era composto por três garotas e dois garotos, e perguntou como foram na prova, nada mais a ser falado ele colocou os fones de volta no ouvido e sentou-se no chão junto deles.
Certo tempo depois mais pessoas começaram a chegar, mas uma garota em especial chamou sua atenção, ela tinha cabelos loiros até os ombros, olhos castanho escuro, vestia uma blusa regata branca e um shorts xadrez branco e laranja. O garoto fixou sua visão nela por alguns segundos, sua animação o cativou e não demorou para que começassem a conversar sobre assuntos vulgares e durante a conversa ela olhou nos olhos dele, ele retribuiu com o mesmo olhar e como em um plano astral as duas almas se encontraram, a dele, uma alma cinza-escuro que tivera sido corrompida ao longo do tempo, a dela, uma alma dourada e brilhante de pureza e inocência e no momento em que as almas se encontram elas se juntaram e pareciam dançar pelo infinito do espaço como se todo o tempo tivesse parado só para que apreciassem aquele momento. Uma valsa entre duas almas opostas em que suas formas se alteravam e se misturavam até que nem mesmo o plano astral fosse suficiente para eles.
Foi em questão de segundos, mas para os dois foi como se a Terra tivesse dado uma volta completa em torno de si. E com essa volta os dois foram de mãos dadas até o ônibus, mas aquele entrelaçar de dedos não durou quanto ambos quiseram. Ela estava em outra van e ele não sabia onde aquela van poderia parar, os dois foram separados como Orpheu e Eurídice e quando o garoto olhou para trás, já na porta do ônibus, pode ver aquela alma dourada dando seu último olhar e adentrar na van.