Papel Pingado
Sei bem como terminei aqui, em um canto escuro do meu apartamento, olhando a lua e ouvindo as sirenes se aproximando. Ainda não sei se aquilo foi real ou não, mas aquela imagem persiste em ficar na memória. Não devo ter muito tempo, já ouço os passos apressados no corredor então serei breve em contar meu caso.
Três dias atrás, ou talvez menos, eu andava pelas ruas de Londres, olho para uma vitrine e vejo um homem por volta dos 80 anos, antigo veterano de guerra, vestindo um sobre tudo, camisa social preta, calças jeans e um tênis qualquer, cabelos grisalhos e uma face cansada, como quem está até as duas da madrugada olhando para o próprio reflexo em uma vitrine de uma loja qualquer.
A chuva fraca aumentava o frio, nenhum carro passava, nem estava estacionado. Não havia pedestres, nem mesmo mendigos jogados pela rua, como era de costume. Eu estava caminhando desde as oito horas da noite, não sabia por que, meu corpo cansado não era mais do tipo de fazer caminhadas. Meu braço estava cansado de segurar o guarda-chuva então o troquei de mão e continuei andando, sem destino, não havia nada aberto e a maioria dos prédios estava com as luzes apagadas o que dava um tom sinistro às luzes alaranjadas dos postes na rua.
Podia ouvir meus passos, minha respiração, meus pensamentos. Lembrei-me de que uma vez, ainda na época em que estava na guerra, eu sonhei com este momento. Eu me via naquela rua, chovia e eu estava sozinho, apenas ali, parado olhando o meio da rua iluminada pela fraca luz do poste. Nunca consegui me lembrar do sonho por completo, mas me vendo na mesma situação me senti em um déjà vu.
Agora olhava para a fraca luz, não me sentia como se o sonho estivesse se tornando realidade, mas como se eu tivesse voltado para o sonho, a luz do poste se apagou e ascendeu, iluminada por ela estava uma garota, talvez tivesse 17 ou 20 anos, não conseguia ver muito devido a minha idade, mas posso assegurar que ela usava uma blusa preta com um triangulo no meio, uma linha branca tocando um lado e algo parecido com um arco-íris saindo pelo outro e uma calça jeans rasgada no joelho, tinha cabelos de um vermelho que refletia a luz dos postes e se estendiam até os ombros.
Ela foi andando em minha direção lentamente. Era um andar indeciso, como quem não tivesse certeza do que estava fazendo. Parou dois metros a minha frente, apesar da face séria e daqueles olhos, tão escuros como as profundezas do universo onde nenhuma estrela brilha, pude reparar que suas mãos tremiam, como se ela encarasse o pior de seus pesadelos. Estou ciente de que meu passado pós-guerra não foi muito bom, depois que voltei comecei a ter fortes atrações por garotas novas, chegava a visitar escolas no período em que acabam as aulas, dizia que os pais haviam me mandado buscar a criança então eu a levava para um beco próximo e me aproveitada do melhor dos prazeres, o prazer da carne, o prazer de ter o controle de uma pessoa indefesa e mandá-la fazer o que você quisesse. Posso dizer que nunca fui pego, mas depois de perder a conta das vezes em que fiz isso e ter me cansado de mudar de cidade a cada ano por ser reconhecido pelas crianças da escola decidi parar.
Mas aquela garota despertou algo em mim, algo adormecido por muito tempo. Eu queria ela, queria tocar seu corpo, tê-la sob meu controle, mas não precisei, pois lá estava ela, sorrindo, dando alguns passos para frente e segurando minha mão. Ela disse apenas uma coisa, “vamos”. E enquanto eu era puxado pelo braço para qualquer lugar que ela me levasse fui me sentindo na pele de uma daquelas crianças com que eu me costumava me satisfazer, uma pessoa estranha te levando para um lugar desconhecido e escuro… Se não fosse pela minha idade eu estaria com medo, mas a ideia parecia divertido.
Andamos vários quarteirões até que entrássemos em uma velha casa, era impossível ver lá dentro, mas ela parecia ter certeza do que fazia. Ela me guiou pelos intermináveis corredores, às vezes eu notava alguns pontos amarelos em meio à escuridão, mas pensava que era apenas minha imaginação, ouvia passos e pensava ser minha imaginação, portas e janelas batiam, era minha imaginação e quando percebo não estava mais segurando a mão daquela garota. Eu estava sozinho em meio a escuridão, não, não estava sozinho, havia um barulho metálico que presumi vir da cozinha e tateando as paredes para poder me guiar eu segui, tremendo e com um frio na barriga que subia a coluna, não era mais divertido como no começo, eu havia recuperado o que a guerra havia me tirado tantos anos atrás, o medo.
Na cozinha o fogão estava aceso e, perto dele, várias sombras me encaravam como se me julgassem por estar agachado perto da parede, tremendo e chorando. Talvez fosse assim que aquelas crianças se sentiam, talvez eu fosse a sombra que não a soltava, não a deixava sair debaixo de mim, mas e se eu fizesse como elas? E se eu apenas fechasse os olhos e implorasse pra que acabasse logo esse pesadelo, assim tudo volte ao normal quando eu acordar.
Adoraria dizer que tudo havia dado certo, não estava mais assustado e as coisas estavam de volta ao normal, mas seria mentira. Quando acordei havia uma fraca luz que podia ser vista da janela perto da pia, pela aparência daquela luz alaranjada eu imaginei que o sol estava nascendo e, cheio de esperança, corri para o lado de fora, mas ao abrir a porta tudo que vi foi uma mexa ruiva seguia de uma barra de ferro acertando minha cabeça.
E agora acordo com de sangue seco nas mãos e provavelmente escorrido no rosto. Meu apartamento está com a mobília empacotada para uma mudança que eu nunca tinha planejado, tudo estava no lugar, exceto por aquela estátua que comprei há muito tempo, ela tinha um formato peculiar, parecia um homem com cabeça de polvo e asas, ele estava sentado em um tipo de trono e seus olhos eram preenchidos por dois minúsculos rubis que agora brilhavam sem motivo aparente.
Olhei para baixo e notei uma folha de papel, com sangue já seco, e uma caneta. Podiam ter pensado que eu deixaria algum testamento ou coisa do tipo, mas agora não tenho nem mais tempo nem mais papel, os passos chegaram até a porta e agora tentam arrombá-la com chutes e não vai demorar a ceder. Temo que não possa ficar e esperar para ver, a janela está aberta com uma fresca brisa e meus amigos de olhos amarelos me puxando para fora.
A porta caiu e com o susto me virei, mas não tinha nada com o que se preocupar, os policiais estavam apenas sorrindo, um leve sorriso com um brilho amarelo nos olhos, eles ficaram lá, observando, enquanto meia dúzia de braços, sombreados pela lua, me puxavam, do décimo andar, janela à baixo.