Doce Terra - Spin Off
E lá eu estava, sentado naquela fila, com as mãos acorrentadas nas costas, apenas observando o homem à minha frente ser levado para além da porta de ferro, eu era o próximo e sabia que não poderia evitar meu fim, ainda mais pelo que fiz no passado (e, diga-se de passagem, foi divertido).
Queria que nada daquilo tivesse acontecido, mas foi um acidente, pelo menos começou com um acidente. Eu não devia ter mais que 20 anos na época, era uma festa da faculdade, muitos já estavam bêbados ou drogados com todo tipo de merda que se podia imaginar, mas em meio aquela festa havia um garoto com uma camisa social azul-escuro e calças jeans, este era eu.
A música estava extremamente alta que até o sofá em que estava sentado parecia tremer, várias pessoas estavam dançando enquanto outras vomitavam nas paredes ou eram pisoteadas quando caíam de tanto beber. Eu sequer conhecia o dono do lugar, fui apenas arrastado para aquele lugar fétido por um grupo de colegas da faculdade, devia ser por volta de quatro horas da manhã, eu devia estar me levantando quando um cara com marcas de agulha no braço e um rosto raivoso cai sobre mim, vendo seu estado eu o jogo para o lado enquanto me levanto e logo ao dar as costas sinto uma mão em meu ombro me puxando para trás. Ao me virar, um punho acerta meu olho esquerdo e me derruba, as pessoas em volta param seus movimentos frenéticos e fecham um círculo à nossa volta.
Enquanto estava no chão a imagem do soco se repetia em minha cabeça, me vi caindo, esbarrando e tentando me segurar em algumas pessoas que, logo após fechar o círculo ficaram rindo de mim. Com pouco esforço me levantei, nunca fui alguém de briga, mas aquela cena despertou algo em mim, algo adormecido há muito tempo. Eu sabia que podia lutar com aquele cara, mesmo ele tendo quase o dobro do meu tamanho.
Ele não estava são então pensei que não seria difícil ganhar. Dei uma investida em sua direção, com o punho cerrado mirando em seu queixo, certamente aquilo o derrubaria se não fosse por ele ter me segurado pelo mesmo braço e novamente me derrubado. Gargalhadas de pessoas que nem em suas próprias mentes estavam ecoavam por meus ouvidos, isso fez com que aquele sentimento que havia despertado ardesse e tudo que precisei fazer foi esticar meu braço e pegar uma seringa vazia bem na minha frente.
Novamente me levantei, mas agora eu me movia devagar, ficava o encarando, apenas esperando para que ele viesse em minha direção e foi o que ele fez. Eu estiquei o braço esquerdo e o segurei pelo pescoço, jogando-o contra a parede então com o braço direito cravei a agulha da seringa incontáveis vezes em sua face até que ficasse em carne viva. Tiveram que me soltar dele depois que comecei a lamber aquelas feridas expostas e cortar minha própria cara.
Longe dele senti como se fosse a mais bela das visões, a carne, o sangue, os gritos. Devo dizer que depois que cortei sua garganta e praticamente redecorei a sala com seu sangue fui expulso da festa, levado por dois policiais que me aplicaram sedativo logo que chegaram e tudo que vi depois disso foi tão confuso quanto empolgante, as cores se moviam, criavam formas e falavam. Eram formas afiadas, próprias para cortes precisos e profundos, elas mandavam eu me mover em direção aos policias (que agora tinham me colocado no banco de trás do carro) e cortar seus olhos para extrair a retina.
Mas eu estava separado por um plástico extremamente forte e flexível, mesmo batendo com a cabeça com toda minha força ele não cedeu. Mas pouco tempo foi necessário para que os policiais parassem o carro, abrissem a porta de trás e, enquanto um me segurava pelas costas, o outro injetava mais, sabe-se lá quanto, sedativo direto em minhas veias. Eu sentia aquela química correr meu corpo, os tons de vermelho que eu via eram viciantes, simplesmente algo sobrenatural e dessa mesma forma sobrenatural eu apaguei e quando acordei o carro estava enfiado no meio de uma árvore. O policial no banco do passageiro tinha um corte na garganta tão maravilhoso que a cabeça, se forçada um pouquinho para trás, poderia ser arrancada, o para-brisa estava coberto de sangue o que impossibilitava qualquer visão da frente. Já o policial de motorista tinha os olhos esbugalhados, a cara roxa e lábios pálidos fora o intestino enrolado sobre o pescoço, acredito que aquilo tenha sido um belo enforcamento.
Minha cabeça doía muito, eu estava coberto de vermelho e fedendo sangue seco, as coisas pareciam girar enquanto eu abria a porta e tirava aquelas seringas vazias do meu braço, eram três delas e iam fundo nas veias do braço esquerdo, que agora estava roxo. A noite ainda não tinha acabado, aquela lua cheia tinha o melhor dos tons de vermelho, talvez fosse o olho furado ou o sedativo, mas me sentia vivo, energético, como se o mundo pudesse ser meu!
Olhei ao redor, a vizinhança era inconfundível, atravessando a rua eu chegaria à casa da garota que conhecera uma vez. Era hora de eu dizer algumas coisas para ela. Atravessando a rua eu via as luzes das casa acesas, todos me observavam, menos da casa dela, provavelmente ela estava transando com algum idiota qualquer e gemendo tão alto que nem chegara a escutar a batida do carro.
Não tive esforço algum para entrar na casa, após pular o muro dei a volta no jardim e entrei pelos fundos abrindo lentamente a porta destrancada. O lado de dentro era a cozinha, estava com as luzes apagadas, na verdade, todo o andar inferior estava com as luzes apagadas, abri algumas gavetas procurando por qualquer coisa que me garantisse alguma diversão, felizmente, encontrei um saca-rolha.
Quase imediatamente ao fechar a gaveta ouvi um barulho vindo do quarto, seguindo ao final da cozinha havia um pequeno corredor, havia três ou quatro portas, a primeira dava no banheiro, pois quando passei podia sentir o cheiro de aromatizante para disfarçar a merda que não rodou. A segunda porta era o quarto dos pais, estava aberta e o lugar vazio.
Quando me aproximei da terceira porta soube que era o lugar que eu procurava, a luz apagada, os gemidos baixinhos e as risadinhas me deram a impressão de que já tinham acabado, e foi quase na completa escuridão que chutei a porta e entrei no quarto. Após isso minha memória mostra apenas flashes do que aconteceu: a perna de um homem sendo puxada, o saca-rolha entrando e saindo de sua barriga e peito, gritos de horror de uma garota, a luz do quarto sendo acesa, minha corrido em direção a garota e depois de pegá-la com o saca-rolha na nuca, então me aproveitar de cada parte daquele corpo deliciosamente nu.
Não haviam mais gritos pela manhã, apenas o cheiro de porra seca que ficara espalhada pela cozinha (que foi até onde minha garota correu). Ou pelo menos foi isso que me disseram quando estava caminhando por esses corredores de concreto, com quatro guardas me cercando, correntes em volta dos pés e das mãos.
Eles abrem aquela porta de ferro no final do corredor e um sorriso enorme surge em meu rosto, eu estava em um palco com dezenas de pessoas me vendo e uma cadeira no meio dele. Eles me levam até a cadeira, onde me sento sem dar trabalho aos guardas. Sinto uma esponja molhada ser posta sobre minha cabeça e depois um pequeno aparato metálico. Todos me encaravam com seriedade, mas meu sorriso não abaixou.
Um homem do outro lado do palco faz um sinal de positivo e depois se vira de frente para uma alavanca e a puxa para baixo. Em menos de um piscar de olhos eu não senti mais nada, vi cores, ouvi vozes, nada mais para mim importava, eu estava indo para minha terra, minha doce terra da dor.