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O Escritor

Meu nome é Charles Stoneman, sou um escritor norte americano que, apesar dos cabelos brancos, tenho pouco menos de 37 anos. Sempre preferi correr atrás da inspiração do que esperá-la chegar até mim, vivia viajando o país por todo tipo de lugar procurando algo que me permitisse criar uma obra-prima e essa oportunidade veio.

Uma de minhas viagens me levou para uma pequena cidade no interior de Utah, um lugar um tanto que pobre, quase sem eletricidade. Não havia mais do que trinta humildes casas na cidade, todas próximas à uma estrada que seguia junto a um rio. Era um terrivelmente quente dia de verão, parei o carro em um posto de gasolina e entrei no pub que havia ao lado para ver se tinha alguém que pudesse me ajudar, ja que o posto estava deserto.

No pub só estava a garçonete e dois idosos conversando em uma mesa no canto do estabelecimento. Me aproximo da garçonete, ela devia ter 17 anos, tinha cabelos ruivos e olhos tão escuros quanto a noite. Mas se deixasse de reparar nos olhos e por um segundo olhasse para a expressão de seu rosto veria imediatamente que algo a incomodava, parecia cansada, com medo, como se tivesse passado noites sem dormir. Ficava intrigado em pensar no que deixaria uma jovem desse jeito, mas decidi não perguntar e apenas pedi algo gelado para beber.

Os velhos conversando no canto eram muito pálidos e falavam baixo. Como a garçonete tinha ido para a cozinha decidi ir até eles para perguntar sobre a cidade. Um deles viu que eu estava me aproximando e encerrou o assunto. Perguntei sobre o movimento na cidade e se haveria algum lugar em que eu pudesse ficar por alguns dias, nenhum deles respondeu, apenas ficaram me encarando com olhos de um castanho tão claro que pareciam amarelos de perto. Percebi que estava incomodando então me retirei, deixei o dinheiro no balcão e voltei para o posto.

Ao voltar encontrei minha caminhonete com o vidro esquerdo estilhaçado, dentro dela havia um tijolo com um papel amarrado nele por um elástico. No papel estava escrito: “saia e não volte”. Não sei que tipo de brincadeira era aquela, mas se alguém queria algo comigo, conseguiu me deixar irritado. Eu estava abrindo a porta da caminhonete quando ouço alguém atrás de mim: “Vai fazer como os outros e não irá embora, não é?”.

A pergunta que a garçonete acabara de fazer me intrigava. Virei-me para perguntar o que acontecera com os outros e vi que ela não estava com o uniforme do emprego e sim com uma camiseta regata preta com a estapamda de alguma banda inglesa, jeans com o joelho direito rasgado, coturnos e o cabelo solto, que ao por-do-sol parecia pegar fogo.

Ela disse que era melhor eu não ficar na cidade, insistiu que eu fosse embora o quanto antes. Perguntei o por que e ela simplesmente disse que os locais não gostavam de visitantes, mas do jeito que ela falava eu tinha certeza de que estava escondendo algo. Após alguns minutos conversando ela viu que eu estava decidido a ficar e após saber meus motivos pediu para que eu passasse a noite em sua casa.

O sol se pora, a casa não era muito diferente das outras. Pequena, de madeira e cheirava a mofo. Não tinha TV, as luzes quase não acendiam e achei que se chovesse e o rio subisse poderia invadir a casa.

A garota disse se chamar Michelle. Ela jogou um cobertor no sofá e disse que eu poderia ficar ali. Perguntei a ela o que queria dizer quando falou sobre deixar a cidade ou acabar como os outros, ela abaixou o olhar e disse que naquela noite eu iria descobrir e então se dirigiu ao quarto e trancou a porta.

Eu deveria ter ido dormir naquele momento, mas ao invés disso fui para perto da janela e fiquei olhando o rio correndo lentamente durante a noite enquanto escrevia meu romance. Teria sido um momento bem inspirador se não fosse pelo fato de algo ter saído da água na outra margem. Pensei que era alguma criança que tinha ido dar um mergulho pois devia ter um metro e sessenta de altura, então ela se virou e vi seus olhos, eles eram dois pontos brilhantes, quase como duas velas queimando ao longe. Ele virou mais noventa graus e começou a andar na direção que o rio corria, senti uma enorme vontade de correr atrás dele, mas quando estava quase abrindo a porta para sair da casa fui acertado na cabeça e tudo apagou.

 Acordo na manhã seguinte ainda no sofá e com uma forte dor de cabeça, Michelle estava sentada em uma velha poltrona na minha frente me observando. “Desculpe pela pancada, mas foi preciso”, ela disse. Perguntei que coisa era aquela que saíra do lago e ela disse que não vira nada anormal, fora o fato de eu estar falando sozinho enquanto olhava pela janela.

Não havia reparado até então, mas Michelle estava vestindo uma camiseta que ia quase até os joelhos e nada por baixo. Após comer algumas panquecas que ela havia preparado, sai dizendo que daria uma volta pela cidade, mas ao ligar o motor da caminhonete, segui o rio. Queria saber a qualquer custo o que aquele garoto queria me dizer.

A parte asfaltada acabou e entrei numa estrada de lama, haviam muitas ávores juntas então tive de prosseguir a pé. 2 Km de carro e 100 metros a pé, foi o que percorri paté chegar em um grande lago cercado pelas ávores. O lugar tinha um estranho cheiro, como se tivesse algo podre por perto, o ar era pesado e algo soava em meu ouvido.

Havia lama por toda parte, mas o que me chamou a atenção foram as marcas nas árvores próximas ao lago e as pegadas que pareciam sair dele. Me aproximei do lago, sua água era verde, opaca. Manchas escuras podiam ser vistas no fundo, elas tinham pouco mais de um metro e meio. O som no meu ouvido, que eu achei ser o vento tornou-se um sussurro, que foi ficando mais forte e mais forte até se tornar um horrível grito.

Atordoado eu acordo ainda na floresta, já era quase noite. Não havia percebido, mas quando me levantei olhei para o lado e um garoto estava a meu lado, mas o que me fez correr não foi o fato de ele estar coberto de limbo, com alguns pedaços de carne e pele faltando, como se tivesse passado anos afogado no lado, o que me fez correr foram seus brilhantes olhos amarelos.

Cheguei até o carro e dei partida, olhei pelo retrovisor e o garoto estava lá, parado, me encarando. Acelerei sem pensar e quase atropelei Michelle. Brequei o carro e perguntei o que fazia ali, disse ela que sabia onde eu estava indo então teve de vir atrás de mim.

Olhei para trás, o garoto desaparecera, mas ao voltar minha visão para frente, lá estava ele, entre eu e Michelle. Eu estava perplexo, dei três passos para trás enquanto Michelle pergunta se eu estava bem. “Não está vendo!?” perguntei, e antes de qualquer resposta me virei e corri. Corri para dentro da já escura floresta e conforme avançava podia ver mais e mais pares de pontos amarelos entre as árvores.

Parei de correr quando senti a água tocando meus pés. Por mais que tenha corrído, eu estava em frente ao lago com dezenas de pares de olhos brilhantes me observando. “Consegue ouví-los?” disse Michelle saindo de trás de uma árvore. E se eu prestasse atenção ouviria alguém me chamando…. uma suave voz vinda do fundo do lago. Comecei a andar em sua direção, afundando aos poucos e quando estava com água na altura da cabeça algo me puxou para baixo.

No fundo consegui ver uma estátua de bronze de 30 centímetros de uma forma humana, porém com asas de morcego e cabeça de polvo, no lugar dos olhos haviam duas pequenas pedras vermelhas, que brilhavam e me atraíam, mas ao me aproximar, tudo se apagou.

A completa escuridão por questão de alguns segundos. E quando voltei a ver, me senti mais leve, não estava cansado e não estava mais no fundo do lago. Vi Michelle ajoelhada próxima ao corpo do garoto dos olhos brilhantes, ela chorava. Me aproximei fazendo algumas perguntas, mas ela não respondeu. Olhei bem para o corpo em seu colo e não era o garoto, era eu.

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