O Jornalista
“Maçonaria!” Era o que corria nos jornais da terra da rainha, mas eu sabia a verdade e sabia que eles nunca a tirariam de mim. Eles estavam se espalhando rápido, não levaria muito tempo para que fosse tarde demais.
Para que eu possa explicar o que houve devemos voltar ao dia de ontem. Uma segunda-feira, tediosa como sempre, nada novo para ser publicado no jornal, precisávamos de uma novidade, algo que abalasse as estruturas. E, naquela tarde, por volta das três horas, recebi uma ligação de um do fotógrafo dizendo que havia encontrado a matéria do século. Corri do escritório para o local, o tempo estava nublado, nuvens pesadas se acumulavam fazendo a tarde parecer início da noite.
Ao chegar reparei bem no lugar, um hotelzinho meia-boca, muito velho. O fotógrafo esperava na porta, perguntei o que teríamos de interessante ali, fora a multa do agente sanitário, ele disse que o lugar era assombrado e depois que um amigo dele passou uma noite lá ele foi levado a um hospício barato e alguns dias depois se enforcou em sua cela.
Como não tinha muito mais para fazer e o jornal pagaria a diária, decidimos ficar. Demos nossos nomes no balcão e pegamos as chaves para os quartos. Enquanto conversava com o balconista perguntei sobre os rumores do lugar ser assombrado, “nunca ouvi nada do tipo” foi o que ele disse. Pessoalmente, ele devia ser a assombração pois era extremamente pálido, magro e usava um terno mofado, o que restava de cabelo em sua cabeça era quase tão branco quanto ele.
Como ainda tinha que terminar meu trabalho, voltei para o escritório. Duas viaturas estavam paradas na frente e faixas de “área criminal não passe” selavam a porta. Ouvi dois policiais conversando, “ele matou quase todos, só um dos funcionários que não estava no local sobreviveu”. Entre as viaturas havia uma ambulância e nela estava, amarrado em uma camisa de força, com sangue no rosto, cabelos despenteados e com sua calça e sapatos sociais também cobertos de sangue, o fotógrafo.
“Eu juro! Havia um garoto!” O fotógrafo não parava de gritar coisas desse tipo. Isso até ele me ver, então surtou de vez. “Não! Você não devia estar aqui!”. Os policiais pareciam ignorar a gritaria, apenas lhe deram uma dose de calmantes até ele apagar e então o levam sabe-se lá pra onde.
Era por volta de seis da tarde, estava escuro e começara a chover. Fui para casa, um apartamento alugado no centro da cidade. Ao entrar no prédio não vi ninguém na recepção, o que achei estranho, mas não dei uma importância. O velho elevador tinha os botões amarelados e as luzes ficavam piscando em dias de chuva. Terceiro andar, segunda porta a esquerda, esta, estava aberta, achei estranho pois moro sozinho.
Era um lugar apertado e como não recebia muito e nem ficava muito em casa, nunca me importara em mobiliar o apartamento. Havia apenas um sofá em frente a uma TV velha de segunda mão, uma cama de solteiro, dois pratos no armário e um na pia junto de duas panelas sujas, pareciam estar lá parados por quase um mês. A pior parte foi o banheiro, limbo verde na pia e no vaso, a banheira, cheia de água, estava preta por dentro e fedia como se alguém estivesse morto la dentro, fora aqueles dois pontos brilhantes dentro dela, que pensei serem moedas, mas estava meio estressado para pensar nisso.
Me encontrava em um estado de mau humor, nunca fui chegado aos colegas de trabalho, mas saber que todos estavam mortos não era algo muito feliz, para ajudar, a chuva havia derrubado a eletricidade do prédio inteiro então peguei meu sobretudo, vesti um jeans que achei no chão, coloquei meus sapatos de trabalho e um chapéu que me deixava com cara de mafioso, por fim, desci as escadas até a recepção, não vi ninguém e sai do prédio.
A chuva ficava mais forte, na rua poucos carros passavam e eu não tinha guarda-chuva. Corri até um bar próximo para permanecer seco. No bar havia uma garota no balcão, devia ter algo entre 17 ou 18 anos, vestia um sobretudo preto, coturnos e uma blusa rosa e preta de uma banda punk inglesa. Seus cabelos ruivos caiam sobre os ombros, entre suas mãos estava uma xícara de chá.
Sentei-me ao lado dela, “seu amigo ficou louco, todos próximos a você morreram, não sabe o que fazer e está desesperado”, ela puxou conversa. Fiquei surpreso e perguntei como ela sabia tudo isso, mas ela só me olhou com um sorriso melancólico, deu um gole em seu chá e perguntou, me olhando nos olhos, se eu estava disposto a encontrar a verdade. Mesmo não entendendo bem a pergunta, disse que sim.
As luzes do bar apagaram e voltaram devido a um relâmpago que pareceu ter caído do lado de fora do lugar pois fez-se um barulho ensurdecedor segundos depois. “Então sabe o que fazer” disse a garota com as chaves do quarto do hotel no qual eu tinha alugado quartos para aquela noite, não sei como ela conseguira pegar as chaves do bolso interno do meu sobretudo, apenas peguei as chaves e me levantei, antes de sair pela chuva me virei e perguntei o a ela seu nome, “Mich…. Sally” disse ela, gaguejando.
Sai do bar e fui para o hotel, não sabia que horas eram, meu relógio havia parado e com aquelas nuves cobrindo o céu poderia ser qualquer horário entre 6 da tarde e meia-noite, mas reparei que não haviam carros transitando na rua. O hotel era quase uns 100 metros dali, a fraca iluminação naquela parte da cidade pareceia deixa o lugar ainda mais sombrio, no lado de dentro havia o velho do balcão que me atendera e sentado em uma das cadeiras da recepção estava um garoto, que talvez tivesse 8 anos, não havia ninguém perto dele e o recepcionista estava ocupado, preferi não incomodar então fui para o quarto.
Um cheiro de mobilha velha preenchia o ar, não havia TV, poucas luzes, uma cama de casal bem velha, uma mancha preta de quase trinta centímetros na parede, provavelmente de algum vazamento de água e um banheiro com a lâmpada queimada. Apesar do lugar ser pequeno e das hitórias que ouvi, não me parecia assombrado. Deitei na cama e fiquei encarando o teto, quando estava para pegar no sono olhei para a direita e no criado-mudo estava a câmera do fotógrafo que fora preso esta tarde.
Era uma daquelas câmeras que revelam instantaneamente a foto, não lembrava de te-la visto quando entrei. De qualquer forma, peguei-a e comecei a tirar fotos do quarto para mostrar que não era assombrado, até que uma delas mostrou a janela. O que seria normal se não tivesse aparecido um garoto com os olhos brilhantes no canto da foto. Joguei a câmera contra a parede e olhei pela janela, não tinha nada, mas não era possível aquele garoto aparecer no quinto andar do lado de fora.
Assustado, me virei, a mancha na parede se abrira e agora dava para ver o quarto ao lado, devo admitir que foi algo que não deveria ter visto. Velas por todo o quarto, manchas vermelhas nas paredes e, no meio do quarto, um cículo no chão com alguns rabiscos, talvez uma lingua antiga, e no centro do círculo uma pequena estátua, não pude ver sua forma devido a escuridão, mas parecia ter duas pedrinhas vermelhas no topo dela.
Tiro os olhos do buraco no momento em que sinto alguém tocar meu ombro, me viro, ainda assustado, e me deparo com o garoto da recepção. Seus olhos brilhavam, seu corpo estava molhado, estava coberto por um tipo de limbo verde e haviaum rastro de água vindo do banheiro. Me joguei contra a parede e comecei a gritar, desesperado, abri a porta e foi quando eu percebi que seria melhor ficar no quarto. No corredor escuro haviam dez, talvez vinte deles, todos com olhos que pareciam pequenas chamas circulares.
Tudo se apagou, só me lembrava de estar em uma ambulância com alguém injetando sedativos em meu braço. Acordo em um quarto branco, uma agulha em meu braço e a bolsa de soro ao lado, uma pequena mesa com seringas e doses de calmantes.
Minha visão estava embaçada, mas notei alguém entrar no quarto, “vai ficar tudo bem, depois dessa dose ele não vai precisar se preocupar com o que viu” disse uma voz masculina. Ele preparou uma seringa e senti uma ponta de metal penetrar meu braço e um líquido ser mandado para dentro dele, depois disso minha boca ficou seca, não sentia mais aquele braço, meus olhos viraram para cima, coloquei a outra mão sob o peito e não pude sentir batida alguma, meu corpo ficou gelado e as cores foram se apagando aos poucos, até não sobrar nada além da escuridão… e dois pontos ao longe.