O Louco
A pesada porta de ferro de uma cela qualquer do Hospital Psiquiátrico de Arkham, Massachusetts, se abriu, dois guardas entraram, tiraram o paciente da amarra no teto e o levaram para onde jamais retornaria.
Aquele era o cara da cela ao lado que não aguentou os últimos dois meses de “terapia”. Quanto a mim? Sou o paciente 667-1, já não me lembro de meu nome nem do motivo de estar aqui devido a grande quantidade de remédios que me deram. Como todos neste lugar, sigo as regras, de manhã a primeira dose de pílulas, a tarde três vacinas e antes das luzes se apagarem mais uma dosagem com pílulas coloridas.
Apesar de ser um hospital, o lugar não é dos mais limpos, as paredes que costumavam ser brancas eram amareladas com escorridos pretos de puro muco, algumas sujas de sangue ou vómito. As celas eram lavadas cerca de uma vez por ano o que deixaja um forte cheiro de dejetos humanos por quase todas as alas. Por todos os escuros corredores podiam-se ouvir gritos, fosse das injeções, paranóia ou até alguém tentando cometer suicídio.
E para um grande lugar haviam grandes médicos, não em questão de serem famosos ou inteligêntes, mas de serem realmente grandes e fortes, seus olhos eram estranhos, mas quando apareciam em uma cela não era que você iria reparar muito, provavelmente estaria morto ou tentando escapar, pois eram só em casos assim que eles apareciam.
As selas eram individuais, apertadas, com uma cama, uma pia, uma privada e uma minúscula janela a uma altura em que não se poderia ver o lado de fora. Raramente saíamos das selas, uma vez a cada, talvez, três meses para inspeção, um de cada vez para não manter contato com outros pacientes, ou quando alguém era visitado. Devo adimitir que já recebi uma visita, não era nenhum familiar, isso se eu ainda tiver algum, era uma garota que não disse seu nome, tinha os cabelos vermelhos até os ombros, olhos escuros, usava uma jaqueta de couro e uma calça jeans preta colada ao corpo.
“Espere a terceira lua do próximo mês, chute a porta e siga o corredor pela direita até uma grade bloquear seu caminho”, depois de ouvir isso achei que ela deveria estar em meu lugar, mas ainda assim esperei até a noite que ela disse. Fui levado de volta a minha sela, olhei pelo lado direito em que ela seguia e percebi que o corredor levava à uma porta de madeira, diferente das demais do hospital.
Esperei até tal noite, nesse decorrer de tempo os médicos começaram a marcar os pacientes. Entravam na cela com um ferro quente com um formato de um desenho estranho, outro médico tirava sua camisa e seu peito era queimado. Por noites os gritos foram intermináveis e quando o silêncio era absoluto dava para ouvir o choro junto ao sussurro que vinha com o vento pela janela.
Chegou a esperada noite, a lua estava cheia o que fazia a luz entrar pela janela e iluminar pobremente a cela. Os médicos não haviam dado os remédios noturnos, o que não era mais estranho do que ver todas as portas abertas, as selas vazias e o corredor parecendo estar molhado. Comecei a caminhar para a direita, meus pés descalsos tocavam o molhado chão, havia uma luz saindo por baixo da porta.
Antes que me aproximasse da grade que ficava a quatro metros da porta ouvi algo cair atrás de mim, me virei e vi centenas deles, sombras com formas humanas, seus olhos eram de um amarelho brilhante. Não tive reação alguma, apenas cai de joelhos em frente a tantos deles, pensei que fariam algo, mas simplesmente passaram ao meu redor e andaram na direção da grade, seguraram nela e começaram se mexer para frente e para trás. A princípio não pareceu muita coisa, mas uma força enorme foi exercida a ponto de derrubar a grade com um estrondo que ecoou talvez por todo o prédio.
Eles levantaram, dois me levantaram pelo braço e começaram a me arrastar em direção a porta, eles a abriram e eu devo ter levado uns dez segundos até me acostumar com a claridade. Tudo que consegui ver foi uma estátua de bronze, em um altar, a estátua estava trinta centímetros suspensa no ar e brilhava. Eles me jogaram no chão e ao tentar me levantar vi minhas mãos e pés, cobertos por sangue.
Olhei para trás, conforme eles se aproximavam da estátua iam desaparendo como sombras, além deles, no corredor ao fundo, vi que corria um rio de sangue, preferi não saber qual era sua fonte. Até que ouvi algo parecido com algo batendo em ferro. Olhei para a estátua e prefiro não repetir o que ela sussurrou para mim. Minha visão foi ficando embaçada até que apaguei.
Acordo amarrado a uma cadeira após levar uma baldada de água fria, na sala quase não se via nada. Na minha frente estavam três homens, usavam jalecos brancos com algumas manchas vermelhas nas pontas inferiores, camisas brancas, jeans claros e sapatos sociais. Um deles se aproximou a ponto de ficar cara-cara comigo, olhei em seus olhos, eram de um amarelo claro, pareciam brilhar. “O que Ele te dise?” o homem pergunto com uma voz rouca que parecia o passar de unhas sobre um quadro negro. Eu disse que não sabia do que ele estava falando, o homem olhou para trás e outro lhe deu uma seringa com um liquido verde brilhante, ja estava acostumado com agulhas então nada senti ao injetarem daquilo.
Enquanto retirava a agulha do meu braço o homem olhou os outros dois, eles sabiam que o que eu ouvira não poderia chegar a demais ouvidos. Um deles se retirou e afundou na escuridão da sala.
Por mais estranha que fosse aquela cena eu não estava chocado, o que me incomodava era o que ou ouvira da estátua. Eu sabia a Verdade e não poderia dividí-la com ninguém, existem coisas que apenas a mais insana das mentes suportaria. Sabia que aqueles homens não eram os mesmos seres de olhos amarelos que vira aquela noite.
O terceiro homem retornara, trazia com ele uma pequena estante cirúrgica com uma bandeija coberta por um liquido esterelizante, um picador de gelo e um martelo. Tinha certeza qual seria o final daquilo e não seria bom. O homem pegou o picador de gelo e apontou milímetros a cima do meu globo ocular, pouco acima do canal lacrimal. Com a outra mão pegou o martelo e levantou o braço para pegar impulso. Meu suor era frio, não deixei de encarar o homem por um segundo e desejar que aquelas coisas de olhos amarelos estivessem ali.
O homem desceu o braço com toda sua força, o picador de gelo atravessou meu crânio e pude sentir o aço frio, sobre meu olho esquerdo, se mexendo dentro de minha cabeça e enquanto minha visão ia ficando vermelha pelo sangue que escorria, pude ver, por cima do ombro do homem, pares de olhos amarelos na grande sala escura.